domingo, outubro 7

A bola que mudou o mundo

Com cerca do dobro de uma bola de futebol e pesando pouco mais de 80 Kg, o Sputnik não tinha nenhuma função específica a não ser transmitir um sinal de rádio que podia ser sintonizado por qualquer radioamador. Mas se por um lado o lançamento do primeiro satélite artificial representava uma nova dimensão da experiência humana, remetendo-nos para a possibilidade de sonharmos com uma exploração espacial, por outro lado alterou por completo o propósito e o objectivo da guerra-fria que se vivia na altura.
Com o lançamento do Sputnik, a União Soviética demonstrou a sua potência tecnológica. O inofensivo pontinho brilhante que passeava no céu passou a ser visto com preocupação pelos americanos. Hoje era uma esfera amanhã podia ser uma bomba nuclear.

O Sputnik mergulhara os Estados Unidos numa crise de confiança. Igual às que vimos antes com Pearl Harbor, que precipitou a sua entrada na segunda guerra mundial e mais recentemente com o 11 de Setembro que descambou na guerra no Afeganistão e na invasão do Iraque.
Desta vez, como resposta, a super potência Americana iria dar início ao programa Apollo que duraria 12 anos e terminaria com a chegada do homem à lua.
Foi assim à 50 anos atrás. A bola que mudou o mundo estava longe de saber que hoje colocamos tudo o que queremos no espaço. O mundo evoluiu, mas os Estados Unidos parecem continuar os mesmos, pelo menos no que respeita aos comportamentos imperialistas. Estarão sempre fechados em si próprios, confiantes nas suas políticas até aparecer uma outra bola qualquer no espaço que os agite e que os faça pensar. Só é pena os seus pensamentos geralmente terminarem em políticas desastrosas que sacrificam muitos.

50 anos de evolução tecnológica e extinta a guerra-fria a ameaça nuclear continua. Agora protagonizada pela Coreia do Norte ou pelo Irão. É caso para nos juntarmos ao Sting e dizermos “I hope the Iranians love their children too”.

sexta-feira, setembro 14

A ingrata

Podia tê-la morto. Ninguém iria dar por falta dela. Na realidade sempre se mostrou uma ingrata. Foram cerca de quatro anos a prestar-lhe os melhores cuidados e em troca brindava-me com o seu desprezo.
Pedir-lhe que me falasse seria exigir muito. Já só queria um olhar meigo, um gesto de apreço em vez da sua rispidez e agressividade.
Quando ela queria qualquer coisa para seu próprio proveito não descansava enquanto não me roubava a atenção. Quando queria estar só e sossegada não admitia que me aproximasse.
Tornara-se num ser áspero, desagradável e intratável.
O pior para mim foi nunca entender os seus motivos. Por que razão carregava tamanho ódio na minha pessoa.
Depois tinha fases. Era capaz de me ignorar durante todo o Inverno. Mergulhada numa espécie de depressão, dormitava pelos cantos e nem sequer comia.
Quando chegava a primavera começava aos poucos e poucos a entrar novamente na minha vida. Nunca escondia nem disfarçava a sua ausência. Pelo contrário. Por cima da sua altivez fazia questão de exibir a sua chegada.

Podia tê-la morto. Não me lembro de ela ter família ou alguém que se preocupasse com ela mais do que eu. Podia tê-la enterrado num sítio qualquer, entregado a sua carne à terra que os seus ossos ainda lá estariam hoje.

Mas não! Não era capaz de fazer isso à minha tartaruga. Que mais poderia eu exigir de um animal que vivia desde que nasceu num aquário que já era pequeno para ele.
Ultimamente encarava-me olhos nos olhos e soltava aqueles ruídos estranhos que só ela sabia fazer. No princípio até estranhei, mas depois confesso que me habituei.
Embora de formas diferentes, há animais que expressam a sua lealdade. O cão o gato, ou qualquer outro animal domesticado. Da parte dela nunca chegou nenhum sinal de estima. Rugia e atiçava-se como se fosse um animal selvagem até mesmo quando lhe dava comida.
Disseram-me uma vez que se devia ao facto de lhe dar muitas vezes fiambre e chouriço para comer. Tornara-se carnívora!

Quando entrou na nossa vida era muito pequena. Comprei-a porque o Alexandre tinha 4 anos e todas as crianças gostam de ter um animal de estimação.
Foi crescendo, crescendo, crescendo que por fim já quase não cabia no aquário.
Depois começou o problema das férias. Não tinha quem cuidasse dela nesses períodos. Levá-la comigo para a praia ou para a neve estava fora de questão.
No primeiro ano pedi à minha empregada para lhe dar comida na minha ausência mas esqueci-me que o horário dela era uma vez por semana. Tive sorte em encontrá-la viva quando regressei.
No outro ano, com a permissão do dono, deixei-a no armazém de um restaurante por baixo da minha casa. Sabia que sempre que um empregado lá fosse buscar qualquer coisa lhe daria certamente de comer. Quando cheguei estava maior.
No ano passado, deixei-a simplesmente na rua. Ficou no aquário em cima de uma mesa ao lado da porta de casa. Deixei também ao lado uma lata de comida para facilitar. Pedi aos vizinhos para darem de comer de vez em quando. Ainda pensei que com sorte alguém ma roubasse, mas quando cheguei, não só estava lá ainda como se encontrava maior do que nunca. Conforme consegui apurar a seguir, parece que comia 10 vezes ao dia. Cada vizinho do beco dava-lhe de comer, os homens das obras também e como se não bastasse até os turistas estrangeiros faziam o gosto ao dedo.
Já me esvaziava duas latas de comida por mês e já não cabia no aquário. Tinha que ser. Era inevitável.

Acho que me vi livre dela da melhor forma.
Devolvi-lhe a liberdade que nunca teve e restitui-lhe a sua condição. A condição de ser uma tartaruga aquática.
Um dia antes de irmos de férias largámo-la no grande lago do jardim dos moinhos no Restelo.
Cautelosamente, eu e o Alexandre evitámos as multidões. Entrámos com ela escondida para que não fossemos repreendidos por nenhum guarda-florestal (não fossemos obrigados a trazê-la de volta). Despedimo-nos da bicha e largamo-la na margem. Duas braçadas foram suficientes para vê-la a desaparecer no fundo da água.

Não. Não tenho a consciência pesada e consigo dormir à noite. Também não sou daqueles que abandona a família. Juro que não vou meter os meus pais num lar quando forem velhinhos. É apenas uma tartaruga aquática que eu comprei para o meu filho quando era pequeno e que eu pensava que iria sobreviver na melhor das hipóteses três anos, mas que afinal parecia estar agora a entrar na puberdade.
Pelo menos ali os animais estão num ambiente natural. Têm tratadores que verificam a qualidade da água e alimentam-nos.

Têm atenção se precisarem. Há sempre as avozinhas que levam os netos pela mão para irem ver os bichos.
Podem ainda conviver. Fazer amigos e procriar. Existem outras espécies aquáticas no lago. Rãs, sapos, cágados, peixes, etc.
Há sempre insectos mortos que jazem no lago, que flutuam pelas águas até um qualquer goto.

A verdade é que nunca mais defequei como antes na minha casa de banho. Onde estava o aquário estão agora os cremes e os champôs.
A casa de banho ficou mais vazia.

Quando me olho ao espelho pela manhã pergunto-me se terá sobrevivido no grande lago?
Nunca mais voltámos a vê-la.

O meu bairro

Confesso que até gosto muito do meu bairro.
Acordar sem ver o brilho azul do Tejo da minha janela, seria hoje em dia estranho para mim.
No meu bairro não preciso de relógio. Como nas aldeias, os sinos das igrejas encarregam-se de me avisar. Soam de meia em meia hora.

As ruas desenhadas de basalto, flúem em curso em direcção ao rio, serpenteando as casas e originando os caminhos sinuosos por onde todos os dias tenho que passar.
O pequeno comércio fervilha logo pela manhã. Entre os pregões das peixeiras e as pechinchas do freguês, as mulheres fazem as compras e é frequente ver os homens a lerem as gordas nos jornais.

Ao fim das tardes quando é Inverno os estorninhos regressam às árvores para pernoitar. Voando em grandes bandos, mudam repentinamente de direcção e originam curiosos desenhos e padrões nos céus da cidade.
Com o fim da tarde chega à noite e com a noite chega o Fado, conferindo ao meu bairro um ar romântico.

As pessoas é como se não tivessem nome. São conhecidas pelas suas alcunhas. Muitas delas adquiridas logo ao nascimento mesmo antes da personalidade jurídica.
Da minha janela, para além de ver o Tejo, vejo-as passar. Imagino como são as suas vidas. Conheço as suas alcunhas mas mais não sei.

Então ponho-me a imaginar. Sonho acordado e como jamais me esquecerei do “O que diz Molero” de Dinis Machado (1977), encontro de imediato resposta às minhas perguntas. De um momento para o outro parece que os conheço a todos. Respiro fundo fecho a janela e volto para dentro.

“O que diz Molero” é uma obra-prima que retrata de forma acutilante o país e as mentalidades de há 30 anos mas que ainda permanece actual.
Na realidade o bairro que Dinis Machado descreve pode ser o meu, mas pode ser qualquer um de Lisboa.
O livro, que nos leva a sonhar, consegue ser simultaneamente trágico, cómico e poético.
“O que diz Molero” é obrigatório. Como o Gonçalo Mira escreveu no seu Blog, “…é um hino aos portugueses dos bairros, aquelas personagens peculiares com quem todos nós já nos cruzámos…”.



Mas se até este momento do texto tudo está bem, daqui para a frente tudo ficará mal.
É nos Santos Populares que eu aproveito para me pirar para qualquer lado menos ficar em Lisboa e muito menos em Alfama.
Aqueles que durante todo o ano nunca trabalharam começam agora a preparar as suas barracas. Fazem-se contas à vida porque afinal vai entrar uma receita extra proveniente do exterior. Livre de impostos e de licenças, há que ganhar dinheiro o mais depressa possível e com menos esforço possível. E assim com a chegada dos Santos Populares, começam as guerras e as intrigas entre a vizinhança.
No largo da Igreja “lava-se a roupa suja”. Invocam-se ódios antigos. Insultam-se em ping-pong. Descarrega-se como se pode e como se sabe. Soltam-se as frustrações de toda uma vida de insucesso e de azares.
As crianças, que já deviam estar deitadas, assistem habituadas às discussões. Aprendem desde cedo a compreender quem está do lado da sua família ou quem está contra. Serão elas as protagonistas em poucos anos.
No final, o ódio dá lugar ao júbilo com a chegada da notícia da vitória da marcha. Mas ficam guardados. Porque para o ano há mais.

Mas afinal não é a tudo isto que chamamos de bairrismo popular? Ou será antes a promiscuidade popular?
Não nos importamos! Até gostamos! É como se nos sentíssemos superiores porque moramos com famílias de bem em casas de bem e em bairros de bem, mas na noite de Santo António convergimos para lá para ver o que se passa. É quase como ir ao jardim zoológico ou à feira popular.
Não nos importamos de ficar na fila para comer sardinhas inflacionadas. Nem pomos em causa a higiene dos alimentos ou a simpatia de quem nos atende. Não nos importamos de ouvir música popular tocada por quem não sabe tocar.

A tradição já não é o que era. Em vez de pombos nas ruas temos pitbulls açaimados e dançamos ao som da kizomba em vez das marchas populares.A malandrice e o chicoespertismo mantêm-se. Esses permanecem iguais aos do relatório do Molero.

É nos Santos Populares que eu aproveito para me pirar para qualquer lado menos ficar em Lisboa e muito menos em Alfama. (Já tinha escrito isto, não já?).

segunda-feira, agosto 13

A cor de uma amizade

Então e agora o que é que fazemos? - perguntei eu - Nada. - Respondeu ela. - Não te quero ver mais! Não te quero ver mais à minha frente!
Foram as suas últimas palavras que registei. Foram me ditas assim sem mais nem menos. Não foram consequência de nenhuma discussão. Por isso não foram ditas aos gritos ou sobre exaltação. Talvez por isso não as tenha dita a chorar. Talvez por isso também não tenha chorado.Nem queria acreditar. Tínhamos estado a jantar num restaurante de bairro em Lisboa. Nada indicava tal despedida. Tínhamos estado a falar sobre coisas recentes como dois amigos que não se vêm há semanas. Ela falou-me do seu novo trabalho e eu sobre os meus projectos. Pedimos a conta, pagámos e saímos.

Ainda bem que não lhe perguntei “In my place or in your place?” como costumávamos fazer na brincadeira. A derradeira despedida surgiu já no parque de estacionamento por detrás da bomba de gasolina, onde os nossos carros descansavam. O cheiro do combustível que pairava no ar fazia antever o pior.

Tais palavras, segundo ela, eram fruto de uma longa meditação, mas para mim eram radicais. Acabara de ouvir a palavra “nunca mais” que para mim são levadas à letra, significando nunca mais mesmo.Com a frieza que lhe era característica, estava assim terminada uma amizade de vinte anos. Vinte anos com altos e baixos. Umas vezes mais perto outras mais longe. O casamento dela, o meu casamento. O divórcio dela, o meu divórcio. Uma amizade que começou por ser ingénua e própria de adolescente, em que os nossos corpos não sabiam nada, para terminar vinte anos depois, colorida, com os corpos a saberem tudo.
Ela no seu jeito teimosa, naquele que nunca se deixa convencer, disse-me que tinha que terminar daquela maneira porque não queria estar comigo assim com encontros furtivos. Queria mais do que a cor na nossa amizade. Desejava-me só de estar ao pé de mim, mas que era preciso mais e que como eu não correspondia tomara essa difícil decisão.





Percebi que naquele momento o fim chegara e como é hábito na minha pessoa, no que toca a questões sentimentais, não regateei nem discuti. Respeitei e compreendi.Precisava de sair por cima. Numa movimentação airosa, aproveitei a chegada de um camião cisterna de gasolina que estacionara ali e desapareci por detrás dele, no preciso momento em que ela, debruçada dentro da bagageira, procurava qualquer coisa e não me via. Quando levantou a cabeça já não me encontrou à sua frente.

Guardarei sempre no meu coração e na minha memória a sua meiguice e a sua inteligência bem como as férias, os fins-de-semana, as noitadas e os longos momentos em silêncio que ficava a contemplá-la.Para sempre ficarão também as nossas fotos, que o tempo jamais apagará.Entretanto outras bocas beijei, mas o melhor beijo do mundo, o melhor beijo de sempre será sempre o dela, como na canção dos Echo And The Bunnymen: Lips like sugar, Sugar Kisses.
Talvez eu até mereça que as coisas acabem assim. Talvez eu seja mesmo um cabrão de um fornicador que só vê sexo à frente. Ou talvez não. Talvez a vida só me tenha tornado mais frio do que o normal no que respeita aos relacionamentos amorosos.

Não deixa de ser triste quando uma amizade dura vinte anos e acaba só porque uma pessoa não consegue gostar da outra apenas como amiga e manda tudo para trás das costas.
E os conflitos de interesses numa relação? Quem é que os julga? Quem é o mais egoísta? A que deita fora uma longa amizade sob o pretexto de “curar” emocionalmente o seu próprio desejo? Ou o que só quer amizades coloridas e que não se compromete com ninguém?Aquela que apenas vê o seu lado? Que desiste de tudo e não quer mais acompanhar o meu percurso de vida?Quem é o mais egoísta? O que vai partindo corações por onde passa? Ou a que dispensa assistir mais ao crescimento do meu filho? Qual dos dois gosta mais do seu umbigo?

A esta distância do acontecimento, consigo conferir-lhe hoje uma grande coragem na sua decisão. Libertar-se de uma obsessão e de um estorvo à sua disponibilidade para amar, posicionando-se novamente no tabuleiro de xadrez que é a vida.É isso que a torna digna, tão especial e porventura diferente das de mais.

“Não te quero ver mais! Não te quero ver mais à minha frente!”Pedido concedido.
Compreendo-te. Até sempre.

segunda-feira, maio 7

Paisagens Inóspitas

Lembro-me quando eramos deixados no meio da Serra da Lousã, apenas com um mapa e uma bússola e tínhamos que regressar ao acampamento antes de escurecer.
Era o que eu mais gostava de fazer nas colónias de férias: os jogos de pistas.
Divididos em grupos mistos de 10, seguíamos trilhos, encontrávamos pistas, recolhíamos objectos, respondíamos a perguntas e fazíamos tarefas que nos eram pedidas. Era assim de checkpoint em checkpoint até chegarmos a Foz de Arouce.
Depois do jantar preparava-se o serão. Apuravam-se os resultados e encontrava-se o grupo vencedor.
Devia ter uns 13 anos, e devido a esses jogos, sem querer, começava a perceber a minha relação espacial perante as dimensões da natureza.
Rodeados de árvores, caminhávamos em silêncio por entre vales e escarpas da serra enquanto as cigarras cantavam nas árvores.
Ouvia-se ainda o sopro do vento, que delirante, ora se afastava, ora investia nos nossos ouvidos, ao mesmo tempo que as botas raspavam na terra, partindo um ou outro galho que se atravessava no percurso.
Sem saber incubava o gosto daquilo que hoje classifico como um fascínio por paisagens inóspitas.

Anos mais tarde, quando vi o primeiro filme da Guerra das Estrelas no cinema, voltava a submergir numa grande paisagem. Desta vez através da imaginação e não fisicamente como na serra. Uma vez mais via-me como um ponto num espaço tamanho: o espaço sideral, também ele inóspito. Estéril.Mas todo o silêncio que povoava as minhas paisagens inóspitas não podia durar para sempre.
Em 1987, descubro o álbum Joshua Tree dos U2, e pela primeira vez comecei a ver a música enquanto banda sonora e associá-la a um determinado espaço ou momento.

Hoje, quando oiço qualquer faixa desse álbum, visualizo imediatamente a fotografia do disco.
Captada por Anton Corbijn, a imagem revela-nos um amplo e árido deserto americano que se perde no horizonte, com a banda irlandesa a ser remetida para o canto do enquadramento. A existência de grão e o preto e banco da imagem mostram a emoção crua pela paisagem, e num olhar calmo e alienado do quotidiano, prefaciam a minha primeira banda sonora.


O cinema e a música sempre representaram um referencial para mim. Quer no campo visual quer na esfera auditiva. Foram fundamentais para conceber e imaginar o meu próprio mundo. O meu mundo perfeito.

Lembro-me, por exemplo, da magnífica banda sonora do Ry Cooder que suspende e amplia o tempo no Paris Texas (1984), tornando as estradas e as sucessivas viagens ainda maiores do que são, ou ainda os cenários e a atmosfera de Kubrick no 2001: Odisseia no espaço (1968).

Com a literatura aconteceu a mesma coisa. Mais tarde quando li Sophia compreendi a importância dos 4 elementos nas minhas paisagens. O Fogo, a Água, a Terra e o Ar, são as forças vitais que compõe toda a natureza. E não sendo nenhum alquimista, descobri que, afinal, também sou composto pelas mesmas energias.

Hoje dou por mim constantemente à procura de mais espaços que me transmitam esse fascínio, essa paz de alma, esse equilíbrio de energias.

Tal e qual como na serra, hoje preciso de me sentir um ponto em deslocação, rodeado de um imenso espaço. Quando me revejo nesse minúsculo ponto em movimento consigo compreender o verdadeiro espaço físico que ocupo perante tamanha imponência e ostentação, e sem grande esforço compreendo o que é a liberdade.

Por isso, não entendo os que pedalam parados dentro de um ginásio, ou aqueles que nem hamsters, correm rodeados de espelhos nas passadeiras das academias.

Eu preciso de perder de vista o meu horizonte. Preciso de um wallpaper que forre o percurso da minha corrida. Preciso de um padrão natural. De uma banda sonora que amplie o tempo e deforme as distâncias, permitindo-me uma maior vivência.

Quem nunca desceu uma montanha a esquiar ao som do Passing Stranger do Scott Matthews não sabe do que estou a falar.

quinta-feira, abril 12

A última vez que chorei

Para trás ficara o Prado e dirigia-me para lado nenhum em especial.
Deambulava ao sabor do vento por entre artérias movimentadas, circundadas por ruinosos edifícios.
Mais à frente, o que parecia ser uma pequena praça, enchia-se agora de gente.Anunciando que algo se iria passar em breve, os dois altifalantes suspensos nos tripés de rua, emitiam uma música que mais pessoas chamavam ainda.
Pessoas que antes passavam, paravam agora para ver o que o momento lhes reservava.A música ao contrário do que seria de pensar não era nacional. Era algo moderno para aquelas paragens. Uma espécie de música exótica, árabe, como as que encantam as serpentes, mas apoiada por um chillout recente.

No pequeno larguinho da esquina da San Rafael com a Galiano preparava-se uma passagem de modelos de rua.Já havia som, não havia palco, mas haviam umas fitas que separavam o público que se amontoava, da passerelle feita de chão.Entre as duas colunas de som, os organizadores lutavam contra as adversidades do momento para prenderem a tela com o nome dos armazéns de roupa que patrocinavam o tamanho evento.Numa barraquinha de lona improvisada, as modelos deviam estar a trocar de roupa, a analisar pelos cabides que iam entrando.
Na ausência de uma verdadeira plateia, o público ia se organizando em roda, procurando o melhor lugar. As crianças eram as que mais ansiosas estavam.Os homens eram quase todos escuros. Quase sempre em tronco nu, ou então com mangas à cava. Usavam quase todos chinelos e as suas peles não conheciam cremes, perfumes ou óleos. Despenteados, com e sem dentes pareciam indígenas contemplando o civilizador.As mulheres, apesar das suas peles também não conhecerem os nossos cosméticos, substituíam-nos por outros, sabe se lá onde os arranjavam e por isso eram lindas e exóticas. Tinham roupa. Mas pouca.
Eu por ali fiquei. Afastado o suficiente das gentes, mas capaz de ver tudo. Afinal de contas aquela passagem de modelos não era para mim, turista. Não era a mim que queriam vender as roupas.A distância adoptada permitia-me ver em plano geral, mas também cada rosto individualmente. E eram esses rostos individuais que carregavam a marca da miséria humana, mas que agora exprimiam felicidade com a aproximação do inédito e raro evento.Enquanto aquela música dilatava o tempo e oferecia-me aquelas imagens em câmara lenta, uma senhora da organização saía da tenda-camarim e lançava sobre a multidão punhados de rebuçados.Efervescentes, as crianças buliçosas, no meio de sorrisos e gritos, lutavam umas com as outras sem se magoarem, tentando apanhar o maior número de doces.
Foi nesse preciso momento, nesse instante mais denso – a que Aumont chamou de "instante pregnante" e que Cartier-Bresson no contexto fotográfico e na representação da imagem apelidou de “momento decisivo” - que decidi em não ver nenhuma passagem de modelos. Afastei-me ao mesmo tempo que contemplava, aquele que para mim, foi o mais puro e inocente retrato humano.

Não precisava de ficar mais. Aquele momento permitiu-me inferir o que aconteceu antes e o que iria acontecer depois.
O ter ficado já seria especular e alimentar emoções e por isso, fui me embora.
O resto do caminho foi feito entre lágrimas e pensamentos.
Continuei o meu percurso para lado nenhum, mas com a certeza que encontrara um novo rumo que me transmitia um pouco mais de sabedoria.
Sei agora porque chorei.
Chorei por estar só em Havana, sem ninguém para partilhar aquele momento.
Chorei por pensar no meu filho que estava longe e saber que nunca precisará de se gladiar por causa de pouca coisa.
Chorei ao ver a felicidade daquelas crianças perante tal condição humana.


Há momentos da nossa vida em que choramos mais. Choramos nos primeiros anos de vida quando queremos dizer algo e não sabemos. Ou porque temos fome, ou porque sentimos dor ou simplesmente porque qualquer coisa nos desagrada.Mais tarde choramos por tristeza, por desgosto. Choramos por frustração ou até por amor.

Se conseguíssemos quantificar e medir cada lágrima derramada chegaríamos à conclusão que a quantidade em mililitros é inversamente proporcional à nossa idade. Por outras palavras, quanto mais envelhecemos menos choramos. E assim poderíamos contabilizar e concluir, por exemplo, que chorámos até hoje 37 litros de lágrimas. Se a contabilidade fosse bem organizada poderíamos, ainda, concluir que desse total se calhar apenas 12 litros se justificavam e o restante era escusado. Enfim…

Talvez o importante não seja contabilizar mas aceitar. Aceitar que choramos porque somos humanos e pronto.Quando se passa dos 30 e quando chorar é cada vez mais raro eis que surge a inevitável reflexão acompanhada da pergunta “Quando foi a última vez que chorei?”.

E tu? Quando foi a última vez que choraste?