sexta-feira, setembro 14

A ingrata

Podia tê-la morto. Ninguém iria dar por falta dela. Na realidade sempre se mostrou uma ingrata. Foram cerca de quatro anos a prestar-lhe os melhores cuidados e em troca brindava-me com o seu desprezo.
Pedir-lhe que me falasse seria exigir muito. Já só queria um olhar meigo, um gesto de apreço em vez da sua rispidez e agressividade.
Quando ela queria qualquer coisa para seu próprio proveito não descansava enquanto não me roubava a atenção. Quando queria estar só e sossegada não admitia que me aproximasse.
Tornara-se num ser áspero, desagradável e intratável.
O pior para mim foi nunca entender os seus motivos. Por que razão carregava tamanho ódio na minha pessoa.
Depois tinha fases. Era capaz de me ignorar durante todo o Inverno. Mergulhada numa espécie de depressão, dormitava pelos cantos e nem sequer comia.
Quando chegava a primavera começava aos poucos e poucos a entrar novamente na minha vida. Nunca escondia nem disfarçava a sua ausência. Pelo contrário. Por cima da sua altivez fazia questão de exibir a sua chegada.

Podia tê-la morto. Não me lembro de ela ter família ou alguém que se preocupasse com ela mais do que eu. Podia tê-la enterrado num sítio qualquer, entregado a sua carne à terra que os seus ossos ainda lá estariam hoje.

Mas não! Não era capaz de fazer isso à minha tartaruga. Que mais poderia eu exigir de um animal que vivia desde que nasceu num aquário que já era pequeno para ele.
Ultimamente encarava-me olhos nos olhos e soltava aqueles ruídos estranhos que só ela sabia fazer. No princípio até estranhei, mas depois confesso que me habituei.
Embora de formas diferentes, há animais que expressam a sua lealdade. O cão o gato, ou qualquer outro animal domesticado. Da parte dela nunca chegou nenhum sinal de estima. Rugia e atiçava-se como se fosse um animal selvagem até mesmo quando lhe dava comida.
Disseram-me uma vez que se devia ao facto de lhe dar muitas vezes fiambre e chouriço para comer. Tornara-se carnívora!

Quando entrou na nossa vida era muito pequena. Comprei-a porque o Alexandre tinha 4 anos e todas as crianças gostam de ter um animal de estimação.
Foi crescendo, crescendo, crescendo que por fim já quase não cabia no aquário.
Depois começou o problema das férias. Não tinha quem cuidasse dela nesses períodos. Levá-la comigo para a praia ou para a neve estava fora de questão.
No primeiro ano pedi à minha empregada para lhe dar comida na minha ausência mas esqueci-me que o horário dela era uma vez por semana. Tive sorte em encontrá-la viva quando regressei.
No outro ano, com a permissão do dono, deixei-a no armazém de um restaurante por baixo da minha casa. Sabia que sempre que um empregado lá fosse buscar qualquer coisa lhe daria certamente de comer. Quando cheguei estava maior.
No ano passado, deixei-a simplesmente na rua. Ficou no aquário em cima de uma mesa ao lado da porta de casa. Deixei também ao lado uma lata de comida para facilitar. Pedi aos vizinhos para darem de comer de vez em quando. Ainda pensei que com sorte alguém ma roubasse, mas quando cheguei, não só estava lá ainda como se encontrava maior do que nunca. Conforme consegui apurar a seguir, parece que comia 10 vezes ao dia. Cada vizinho do beco dava-lhe de comer, os homens das obras também e como se não bastasse até os turistas estrangeiros faziam o gosto ao dedo.
Já me esvaziava duas latas de comida por mês e já não cabia no aquário. Tinha que ser. Era inevitável.

Acho que me vi livre dela da melhor forma.
Devolvi-lhe a liberdade que nunca teve e restitui-lhe a sua condição. A condição de ser uma tartaruga aquática.
Um dia antes de irmos de férias largámo-la no grande lago do jardim dos moinhos no Restelo.
Cautelosamente, eu e o Alexandre evitámos as multidões. Entrámos com ela escondida para que não fossemos repreendidos por nenhum guarda-florestal (não fossemos obrigados a trazê-la de volta). Despedimo-nos da bicha e largamo-la na margem. Duas braçadas foram suficientes para vê-la a desaparecer no fundo da água.

Não. Não tenho a consciência pesada e consigo dormir à noite. Também não sou daqueles que abandona a família. Juro que não vou meter os meus pais num lar quando forem velhinhos. É apenas uma tartaruga aquática que eu comprei para o meu filho quando era pequeno e que eu pensava que iria sobreviver na melhor das hipóteses três anos, mas que afinal parecia estar agora a entrar na puberdade.
Pelo menos ali os animais estão num ambiente natural. Têm tratadores que verificam a qualidade da água e alimentam-nos.

Têm atenção se precisarem. Há sempre as avozinhas que levam os netos pela mão para irem ver os bichos.
Podem ainda conviver. Fazer amigos e procriar. Existem outras espécies aquáticas no lago. Rãs, sapos, cágados, peixes, etc.
Há sempre insectos mortos que jazem no lago, que flutuam pelas águas até um qualquer goto.

A verdade é que nunca mais defequei como antes na minha casa de banho. Onde estava o aquário estão agora os cremes e os champôs.
A casa de banho ficou mais vazia.

Quando me olho ao espelho pela manhã pergunto-me se terá sobrevivido no grande lago?
Nunca mais voltámos a vê-la.

O meu bairro

Confesso que até gosto muito do meu bairro.
Acordar sem ver o brilho azul do Tejo da minha janela, seria hoje em dia estranho para mim.
No meu bairro não preciso de relógio. Como nas aldeias, os sinos das igrejas encarregam-se de me avisar. Soam de meia em meia hora.

As ruas desenhadas de basalto, flúem em curso em direcção ao rio, serpenteando as casas e originando os caminhos sinuosos por onde todos os dias tenho que passar.
O pequeno comércio fervilha logo pela manhã. Entre os pregões das peixeiras e as pechinchas do freguês, as mulheres fazem as compras e é frequente ver os homens a lerem as gordas nos jornais.

Ao fim das tardes quando é Inverno os estorninhos regressam às árvores para pernoitar. Voando em grandes bandos, mudam repentinamente de direcção e originam curiosos desenhos e padrões nos céus da cidade.
Com o fim da tarde chega à noite e com a noite chega o Fado, conferindo ao meu bairro um ar romântico.

As pessoas é como se não tivessem nome. São conhecidas pelas suas alcunhas. Muitas delas adquiridas logo ao nascimento mesmo antes da personalidade jurídica.
Da minha janela, para além de ver o Tejo, vejo-as passar. Imagino como são as suas vidas. Conheço as suas alcunhas mas mais não sei.

Então ponho-me a imaginar. Sonho acordado e como jamais me esquecerei do “O que diz Molero” de Dinis Machado (1977), encontro de imediato resposta às minhas perguntas. De um momento para o outro parece que os conheço a todos. Respiro fundo fecho a janela e volto para dentro.

“O que diz Molero” é uma obra-prima que retrata de forma acutilante o país e as mentalidades de há 30 anos mas que ainda permanece actual.
Na realidade o bairro que Dinis Machado descreve pode ser o meu, mas pode ser qualquer um de Lisboa.
O livro, que nos leva a sonhar, consegue ser simultaneamente trágico, cómico e poético.
“O que diz Molero” é obrigatório. Como o Gonçalo Mira escreveu no seu Blog, “…é um hino aos portugueses dos bairros, aquelas personagens peculiares com quem todos nós já nos cruzámos…”.



Mas se até este momento do texto tudo está bem, daqui para a frente tudo ficará mal.
É nos Santos Populares que eu aproveito para me pirar para qualquer lado menos ficar em Lisboa e muito menos em Alfama.
Aqueles que durante todo o ano nunca trabalharam começam agora a preparar as suas barracas. Fazem-se contas à vida porque afinal vai entrar uma receita extra proveniente do exterior. Livre de impostos e de licenças, há que ganhar dinheiro o mais depressa possível e com menos esforço possível. E assim com a chegada dos Santos Populares, começam as guerras e as intrigas entre a vizinhança.
No largo da Igreja “lava-se a roupa suja”. Invocam-se ódios antigos. Insultam-se em ping-pong. Descarrega-se como se pode e como se sabe. Soltam-se as frustrações de toda uma vida de insucesso e de azares.
As crianças, que já deviam estar deitadas, assistem habituadas às discussões. Aprendem desde cedo a compreender quem está do lado da sua família ou quem está contra. Serão elas as protagonistas em poucos anos.
No final, o ódio dá lugar ao júbilo com a chegada da notícia da vitória da marcha. Mas ficam guardados. Porque para o ano há mais.

Mas afinal não é a tudo isto que chamamos de bairrismo popular? Ou será antes a promiscuidade popular?
Não nos importamos! Até gostamos! É como se nos sentíssemos superiores porque moramos com famílias de bem em casas de bem e em bairros de bem, mas na noite de Santo António convergimos para lá para ver o que se passa. É quase como ir ao jardim zoológico ou à feira popular.
Não nos importamos de ficar na fila para comer sardinhas inflacionadas. Nem pomos em causa a higiene dos alimentos ou a simpatia de quem nos atende. Não nos importamos de ouvir música popular tocada por quem não sabe tocar.

A tradição já não é o que era. Em vez de pombos nas ruas temos pitbulls açaimados e dançamos ao som da kizomba em vez das marchas populares.A malandrice e o chicoespertismo mantêm-se. Esses permanecem iguais aos do relatório do Molero.

É nos Santos Populares que eu aproveito para me pirar para qualquer lado menos ficar em Lisboa e muito menos em Alfama. (Já tinha escrito isto, não já?).