domingo, abril 12

A recaída

Eu sabia que não devia ter fumado aquela cigarrilha. Foi no dia 7 de Março no casamento da minha irmã. A culpa foi do álcool que acabou por pensar por mim.

A verdade é que sou um adicto da nicotina por mais que me custe aceitar. O tabaco é uma droga e para mim funciona como uma droga. Há que assumir e dizer as coisas com frontalidade. Basta-me dar uma passa e estou novamente agarrado. O processo até começar a fumar novamente com regularidade pode até durar meses a acontecer, mas uma vez experimentado está aberto ao cérebro o precedente para continuar.

Nos dias que se seguiram ao casamento não mais fumei. Umas semanas depois fui jantar a casa de uma amiga que me perguntou se eu ainda fumava. Estava-lhe a apetecer um cigarro e não tinha. Disse-lhe que não fumava há alguns anos mas que se houvesse uma cigarrilha marchava. Ela lembrou-se que tinha um charuto algures guardado de um casamento em que fora. Terminámos a noite a rodar o Monte Cristo por mais de uma hora enquanto recordávamos o nosso passado e partilhávamos as ideias para o nosso futuro.

Depois vieram mais alguns jantares em casa de outra amiga. Essa sabia que era fumadora e para não ficar atrás fui preparado. Levei uma caixa de cigarrilhas para mim. As que sobraram ainda duraram uma semana. Primeiro eram só para depois do jantar, depois já só eram para depois das refeições e uns dias mais tarde também já havia espaço para elas para depois da queca.

Depois veio o concerto dos Milion Dollar Lips. Tinha-me esquecido de comprar cigarrilhas e ainda por cima podia-se fumar lá dentro. Cravei alguns cigarros e no dia seguinte já tinha comprado um maço de Marlboro.

Fui confrontado diversas vezes pelo meu filho que me dizia: “tás viciado outra vez pai!” e eu limitava-me a dizer que não, que estava tudo controlado. Há alguma coisa mais triste que ver um filho a reprimir-nos e sabermos que ele têm razão?

Foi aí que parei e pensei na merda que estava a fazer e no que a minha vida se estava a tornar. Afinal de contas, como um toxicodependente começara de mansinho nas cigarrilhas e preparava-me agora para as doses diárias dos cigarros.

Perdi o sentido de humor. Cheiro mal. O cheiro nauseabundo entranha-se na minha roupa, nos meus cabelos e nos meus poros. Já não tenho a resistência da semana passada e começam-me a aparecer os primeiros sinais de catarro. Com tudo isto chegou também a frustração e o sentimento de culpa. Eis a miséria humana espelhada no meu Ser. Como eu me odeio!

Porém, quando tudo parece estar perdido aparece sempre alguém para nos dar a mão. É neste momento que acreditamos nas coincidências. Sem saber de nada ontem uma amiga minha convidou-me para ir com ela tirar um curso de mergulho.

Nem é tarde nem é cedo. Para purificar a alma e o corpo não deve haver nada melhor que submergir no fundo do mar com uma botija de oxigénio e dislumbrar cardumes de peixes que ingenuamente desconhecem os malefícios do tabaco. Aceitei.

Preciso de voltar à vida que tinha antes da Páscoa. Afinal de contas sou um tipo que corre 5 km todos os dias, fiz a mini-maratona em 46 minutos e jogo ténis todos os sábados. Já para não falar do ski, dos patins em linha, da bicicleta e de outras actividades que tenho vindo a praticar.

Com o fim da Páscoa tudo vai voltar ao normal e tal como Cristo vou ressuscitar para a vida após uma ausência de um mês.

No fim deste texto vou fumar o último cigarro e preparar-me para a ressaca que aí vêm.


sexta-feira, abril 10

Uma história mal contada

Todos nós sabemos que quem conta um conto acrescenta um ponto. Temos esse exemplo prático quando vamos à padaria e desabafamos com a padeira em como nos dói a cabeça e depois, após um mês de férias nas Caraíbas, ficamos surpreendidos quando regressamos ao bairro e verificamos que muitos dos vizinhos nos julgavam mortos com um qualquer tumor cerebral.

Se há histórias mal contadas a do cristianismo é uma. Nunca me convenceu por uma razão muito simples: a do longo tempo que nos separa desse acontecimento.

Numa altura em que não havia o recurso ao registo digital, as façanhas eram escritas, traduzidas, rescritas ou verbalizadas de geração em geração.

Com os cybertextos e as e-textualidades de hoje em dia essa história seria seguramente diferente. Não haveria espaço para técnicas como a do “cadáver esquisito” onde cada um vai acrescentando palavras ou imagens sobre uma primeira proposta da história e através do seu Tempo e da sua Cultura, vai fazendo e seguirá a fazer a sua participação na obra colectiva.

Numa altura como esta da Páscoa em que se comemora a ressurreição de Cristo e a vitória sobre a morte, importa para mim não dissertar sobre essa história mal contada mas ver o lado romântico da coisa.

Acreditar que Jesus esteve reunido com os seus apóstolos no Getsemani na noite anterior à sua morte, e que terá entrado em agonia, ao ponto do seu suor se tornar em gotas de sangue que escorreram pela terra é demasiado figurativo e simplista para a minha mente romântica.

Pois então o que falta para tornar esta história mais romântica e comovente ainda? Falta música, dramatização e profundidade nas palavras de Cristo que só 1973 anos depois foram finalmente conseguidas pelas mãos de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice na magnífica interpretação de “Gethseman” por Ted Neeley (1943).

Nesta Páscoa sugiro que se deixem de ovos de chocolate e amêndoas e rumem até ao vídeo clube, não para alugarem a Paixão de Cristo do Mel Gibson mas a Ópera Rock Jesus Chrisr Superstar.

Trinta de cinco anos depois do lançamento do filme eis que surge novamente Ted Neeley, mais velho e mais poderoso. Desta feita em teatros, numa das mais soberbas interpretações de Cristo que eu me lembre.

Se quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, retirando, por vezes, verdade ao conto, neste caso pode-se dizer que quem interpreta uma música acrescenta-lhe o que lhe vai na alma. A mesma música a mesma letra mas com o poder de mais anos em cima. Quase os mesmos com que Cristo morreu.

Com Cristos assim quase que apetece ir à missa.



Ted Neeley - Gethsemane - Jesus Christ Superstar (2008)




Ted Neeley - Gethsemane - Jesus Christ Superstar (1973)

quarta-feira, março 4

O pequeno vício

Doía-me o rabo. Sobretudo naquela parte que rodeia o ânus e se estende quase até ao inicio das virilhas. Mas isso foi só no dia seguinte porque durante aquelas longas duas horas só senti um intenso prazer. Não era propriamente um amador. Já tinha feito várias vezes, sobretudo ao fim de semana ou ao fim da tarde que é quando gosto mais.

O problema foi ter estado parado algum tempo. Devia fazer regularmente pelo menos 3 vezes por semana. Isso deixaria-me em forma e o meu corpo acabaria por não se queixar.

Mas apesar de tudo não estou arrependido. Tento sempre me superar. Adoro começar devagar e ir aumentando o ritmo até atingir o ponto alto. Depois quando não aguento mais descomprimo e abrando o ritmo.

Mas são sobretudo os movimentos cíclicos para cima e para baixo que me fazem mais feliz. Tenho tempo de fechar os olhos por instantes e respirar fundo uma lufada de ar fresco. Depois cerro os punhos e contínuo até aguentar.

Nunca há uma vez igual. Cada vez é sempre única porque também escolho locais diferentes para fazê-lo.

Hoje vou na rua e vejo outras pessoas como eu. Pessoas que nunca tinham experimentado e que agora não querem outra coisa.

Tal como eu são pessoas felizes que assumiram a sua escolha. Aprenderam a gostar e por mais que doa no inicio sabem que depois passará.

Hoje estão tão viciadas como eu.
Doía-me o rabo. Maldita bicicleta!

Videoclip


segunda-feira, março 2

Queres casar comigo?

Felizmente que a maioria dos casamentos dos meus amigos já ocorreram. O pessoal nascido na década de 70 já está despachado, mas agora começam aparecer o dos putos nascidos nos anos 80. Sendo cada vez mais escassos, a verdade é que há sempre uma alma que ainda resolve casar.

Haverá evento mais ridículo e tedioso do que o casamento?
Fui convidado para ir a um e não tenho forma de dizer que não.

Se é verdade que momentos houve em que se faziam festas de arromba e as cerimónias eram carregadas de um forte simbolismo, o casamento hoje não passa de um capricho de mau gosto.
Justificavam-se noutras épocas quando os filhos eram prometidos pelos pais, ou quando eram necessários para legitimar uma relação e se poder sair de casa dos pais.

Hoje em dia nada disso acontece. O sexo oral começa a ser feito desde muito cedo dentro do carro, as férias no estrangeiro entre namorados já são recorrentes, para ter filhos já só basta fazê-los e a união de facto é um instituto jurídico que regulamenta a convivência entre duas pessoas.

É um facto que os casamentos também estão em crise e têm vindo a diminuir, mas como se explica que ainda haja quem case?
Só vejo duas respostas possíveis: casa-se por desvario (acto inconsciente) e casa-se para angariar fundos (acto consciente).

Em tempos de crise financeira a realização de um casamento é quase um insulto. É uma provocação aos próprios pais porque pagam a boda e aos convidados porque têm que contribuir para mais um peditório.

Depois de tantos casamentos que assisti não vi nenhum que me tivesse marcado. Foram todos iguais. O mesmo tipo de igreja, a mesma homilia, as mesmas flores, as mesmas quintas, os mesmos fotógrafos, os mesmos menus, o mesmo chuveiro de gambas, a mesma mesa de queijos e sempre o mesmo apita o comboio.

Um convite para um casamento é sempre sinónimo de despesas de última hora. A prenda para os noivos, o fato e os sapatos novos, a roupa dos miúdos, o cabeleireiro da mulher, etc. Tudo isto somado pode ultrapassar os € 350.00

Por isso, acho que o casal de namorados antes de entrarem em devaneios do “eu” devia ser mais altruísta. Antes de enviarem os convites, o casal deveria sondar os coitados dos familiares, os desgraçados dos amigos e os infelizes dos conhecidos para perceber se há ou não entusiasmo na forma como recebem a notícia.

Depois é vê-los num corrupio para organizarem a festa. O desdobrar de esforços dos familiares. A contratação dos serviços, as insónias, o stress, as preocupações.
Depois recebemos o convite. Aquele cartãozinho, geralmente de mau gosto, que nos dá um prazo para confirmar se vamos.

Quando olho para o convite consigo ver nas entrelinhas frases maléficas proferidas pelos noivos: “Começa a preparar a guita para a prenda que estamos a precisar de dinheiro” ou então “ha ha ha foste apanhado! Pensavas que te escapavas? Já recebeste o convite agora tens que contribuir. Quer vás, quer não vás”.

E quando ao fim de um, dois ou quatro anos recebemos a notícia que aquele casamento já era? Dá vontade de quê?

É aqui que o parlamento deveria entrar. Mais importante que avançar com os casamentos entre homossexuais era avançar com uma lei que protegesse os convidados e os pais dos noivos em caso de divórcio. Assim, todos os noivos deveriam ser responsabilizados pelos seus falhanços conjugais até um período de 5 anos.

Os divórcios deveriam ser considerado um luxo, uma extravagância caprichosa do espírito caso ocorressem nos primeiros cinco anos. Por conseguinte, os casados ficariam obrigados a indemnizar todos os presentes de acordo com a tabela dos “transtornos causados”.

Como essa lei não existe, eu, se calhar, aproveitava este post para pedir desculpa a todos por não ter conseguido mas do que uns míseros 4 anos.
Não poderia estar mais arrependido e lamento ter vos feito gastar dinheiro e de vos ter roubado tempo naquele solarengo sábado de Outubro de 1996.

Queria também pedir desculpas públicas aos meus pais que pagaram a boda enquanto eu com o dinheiro das prendas fui laurear a pevide para a lua-de-mel.
A todos as minhas sinceras desculpas.



sexta-feira, fevereiro 13

O regresso do rock dançante

Soberbo. Nem foi preciso ouvir muito. O novo álbum dos Franz Ferdinand já me conquistou.

“Tonight” não é igual aos outros álbuns. Não é melhor nem é pior. É diferente.

O álbum tem o andamento próprio do Disco dos anos 70 apesar de as composições serem rock. O resultado é genial, ficando algures entre um rock que é dançável ou uma dança que é rockavel. Assim, a banda pisca o olho às discotecas e traz uma nova atitude ao rock.

Musicalmente as linhas rítmicas são diferentes. O baixo é funkeado e a bateria por vezes Disco. As guitarras continuam a suar como de costume embora menos frenéticas o que, juntamente com as vozes, são fundamentais para não descaracterizarem a banda. O uso de sintetizadores em alguns temas não é por acaso e demonstra bem onde o grupo quer chegar.

“Tonight” é um álbum dançável. O tempo ronda as 105 batidas por minuto aproximando-se assim das pistas de dança, ao contrário do álbum anterior que fluía energicamente a 150 batidas por minuto.

Herdeiros do punk rock dos anos 80 os Franz Ferdinand aproximam-se agora mais do britpop, fazendo-nos lembrar (em parte devido aos coros e falsetes de voz) a bandas com os Blur.
As influências de algum glam rock continuam. A lírica e a atitude da banda são um bom exemplo disso, conferindo ao álbum um cariz descontraído, licencioso e impudico.

A actuação da banda no Super Bock Super Rock na edição de 2006 foi sublime. Talvez o melhor concerto que vi nos últimos tempos. A digressão do “Tonight” arranca agora na Europa mas não está prevista a passagem da banda pela nossa aldeia. Talvez num desses festivais de verão…

“Tonight” é aquele álbum que apetece ouvir nu numa sala com mais 30 pessoas nuas sem saber como tudo vai terminar.

C’mon let’s get high!

quarta-feira, fevereiro 11

Obama Superstar

“O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo.”
Karl Marx, "Uma Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" (1844)

É impressão minha ou está tudo doido com a eleição de Obama? Para quê tanta histeria colectiva?

Eu não sou contra o Obama. Sou contra a Obama-mania.

A TV e a Internet mostram a família Obama como se de uma família real se tratasse. Foram bisbilhotar o passado e a família. Entrevistaram o seu barbeiro, os antigos colegas da escola e as pessoas na rua. Na tomada de posse vimos os vestidos, os piropos à mulher, os bailes e as poses informais e na realidade ainda não fez nada.

Concordo que os seus discursos sejam brilhantes e motivadores. Simpatizo com ele e se demonstrar ser um grande politico e tiver sucesso até sou capaz de comprar uma estatueta dele e por em cima da televisão, mas, para já, deveríamos julgar Obama pelo que ele faz e não pelo que queremos que ele faça.

A maioria das pessoas nem sabe quais são as suas propostas governativas. Aqui em Portugal então nem sabem a diferença entre Democratas e Republicanos. Apenas sabem que o Bush é republicano e que por isso é mau e de boca em boca e de café em café vai se espalhando a convicção.

Obama tem grandes qualidades e isso é inegável, mas é óbvio que para se criar o mito Obama foi necessário ele ser negro. Mas o mais curioso é que isso é o que menos determina as suas capacidades governativas. Não será a cor da pele que vai fazer dele mais ou menos competente e por isso irrita-me profundamente a ideia de que Obama personifica a salvação.

Este tipo de solução baseada numa mudança e renovação radical geralmente funciona em pessoas que se encontram perdidas no mundo e desmotivadas com a vida. Foi assim no Brasil com Lula (o operário do nordeste defensor dos pobres), com Morales na Bolivia (o índio agricultor defensor das minorias) e Chaves, Fidel, Eva Perón e por aí fora.

Esta história da eleição de Barack Obama faz me lembrar a história da nossa senhora Fátima. Eu não acredito em Fátima. Pelo menos que ela tenha aparecido em cima de uma arvore aos pastorinhos e que tenha dito uns segredos. Mas a verdade é que se criou um mito e que isso alimentou uma crença que até hoje é seguida.

Mas se só três pessoas viram a santa como se justifica que tanta gente acredite? Simplesmente porque a santa não é julgada pelo que fez mas pelo que as pessoas querem que ela faça. Tal e qual como Barack Obama.

Obama também ganhou as eleições porque soube tirar partido das redes sociais da internet. Obama abriu um precedente e as campanhas eleitorais nunca mais vão ser as mesmas. Ao atingir as massas de forma eficaz, Obama mostrou que o marketing social é uma realidade e por isso questiono-me até onde é isto vai parar.

Quando inicio este post citando Marx é porque vejo nas suas palavras a explicação para isto tudo. Mais do que condenar a religião, Marx na realidade está a criticar toda uma sociedade condenada à lassidão.

A religião e os mitos criados pelas massas “funcionam no sentido de pacificar os oprimidos; e a opressão é definitivamente um erro moral. A religião reflecte o que falta na sociedade; é uma idealização das aspirações do povo que não podem ser satisfeitas de imediato”.

O ópio do povo alivia a dor, mas ao mesmo tempo, torna os homens indolentes, nublando a sua percepção da realidade e tirando-lhes a vontade de mudar.

Vamos com calma. Comedidos e com cautela. Obama pode ter boas intenções mas está a ser fabricado um produto à imagem e semelhança dos que o fabricam: os americanos.

Barack Obama é, para já, apenas um homem que ganhou as eleições.

O vídeo que se segue foi visto no You Tube mais de 16 milhões de vezes. Puro fanatismo ou curiosidade dos tempos modernos?

sábado, fevereiro 7

Uma novela do outro mundo

Já percebi porque perdi o interesse pelas telenovelas. Ao contrário do que possam pensar, não foi pela fraca qualidade dos actores nem pelos enredos medíocres, mas sim por causa dos cenários e dos adereços.

Estou farto de telenovelas passadas em grandes cidades que mostram apartamentos muito bem decorados e gente muito elegante com roupas muito caras. Por outro lado, também já não posso com aquelas que são passadas no sertão ou numa herdade do Alentejo, com paisagens de perder de vista e pores-do-sol fotográficos em que os actores fingem ter sotaque e vestem roupas campestres.

Ultimamente inventaram umas que são passadas (vejam só ao ponto que isto chegou) no estrangeiro. Os actores aparecem descalços vestidos de hindus e com as caras pintadas. Como espectador exijo uma reviravolta na parte cénica.

Sugiro então uma novela do outro mundo. Os mesmos actores, as mesmas personagens, as mesmas intrigas, os mesmos romances e os mesmos desfechos mas gravados no espaço. Quer dizer não é bem no espaço. Seria gravada na terra mas a fingir que era passada dentro de uma estação espacial. Ou seja, a acção era passada no futuro (talvez no ano 2631) e já não havia planeta Terra. Havia uma gigantesca estação espacial que albergava toda a humanidade.

E isto por quê? Por causa da questão dos adereços. O pessoal está farto de ver os actores com os pés no chão. Acho que era muito melhor inovar e meter os actores a flutuar e a dar cambalhotas no ar juntamente com o resto dos adereços. Com a tecnologia que há hoje é possível. Basta erguer essa gente com uns cabos amarrados à cintura que depois o computador encarrega-se de tirar de lá o cabo.

Não sei se perceberam a subtileza da coisa. O objectivo não é fazer uma serie de ficção cientifica e andar tudo aos tiros com pistolas laser. Era só mesmo mudar os cenários e a movimentação dos actores. Ah, e as roupas claro!

Mantinham-se os mesmos estatutos e desigualdades sociais (porque isso há-de sempre haver), mantínhamos os mesmos conflitos de interesses (dentro de uma estação espacial do tamanho da terra com certeza que dá pano para mangas) e preservávamos os diálogos porque, se formos ver bem, nem são maus. Claro que teríamos que fazer uns ajustes mas o teor seria o mesmo.

A novela podia-se chamar: “Podia acabar o mundo (que nós vamos para o espaço) ” e o par de actores podia ser o Paulo Pires e a Diana Chaves.

Vamos ver um exemplo:

Entra o Paulo Pires a flutuar de barriga para cima dá uma cambalhota para traz e fica em pé a flutuar de frente para a Diana Chaves e diz:

- Amor viste os meus colantes azuis-escuros?
- Já te disse que não quero conversas contigo. O que tu fizeste comigo não se faz.
- Mas amor… Já te expliquei que a Rita é um robô. Está programada para servir à mesa.
- Não me interessa. Não quero saber. Deixaste-me lá fora 10 minutos a flutuar à tua espera.

… e com duas braçadas de bruços flutua lentamente em direcção à porta a chorar.
Paulo Pires não a deixa sair e puxa-lhe o ombro para trás. Logo esse pequeno puxão transforma-se num grande empurrão devido à ausência de gravidade.

- Tu agrediste-me!
- Não amor! Não te esqueças que estamos no espaço. Não há gravidade!
- Ah pois. Tens razão. Desculpa. Estou confusa. - E começa a chorar.

Perceberam como se faz senhores produtores de novelas? Vamos lá a pensar nisto e meter mãos à obra.

segunda-feira, fevereiro 2

Filho és, pai serás.

Ora deixa cá ver… a reflexão de hoje remete-nos para… 1… 9… 8 6.
Sim é isso! Foi na altura do Duarte & Companhia. Os meus pais já estavam divorciados e por isso o meu pai ia-me buscar aos fins-de-semana de quinze em quinze dias a casa da minha mãe, no seu Opel Kadett. Eu tinha, portanto 13 anos.

Nessa altura já respirava música. As aparelhagens não tinham CDs, mas já havia quem tivesse dessas.
Como tal, a rádio era um bem essencial e a capacidade de gravar músicas para cassetes era uma funcionalidade obrigatória nas aparelhagens de qualquer jovem. Era isso e ter um Spectrum 48K.

A rádio Cidade, pela mão dos brasileiros, dava cartas e inovava. Lembro-me que tinham um programa todas as Sextas-feiras chamado “Cidade Live Concert”. Devia começar à meia-noite e prolongava-se pela madrugada. O programa tinha a particularidade de passar um álbum ao vivo sem interrupções pelo meio. Essas noites eram verdadeiras vigílias. Era necessário desvelo para virar a cassete o mais depressa possível quando chegava ao fim para continuar a gravar do outro lado. Mesmo assim já sabia que uma música ficaria sempre sacrificada.

A importância dessa rádio era tal que não só anunciavam a existência desses álbuns, como os disponibilizavam para gravarmos sem publicidade pelo meio. A maioria desses álbuns nem sequer existia à venda em Portugal. E se existissem nós também não tínhamos dinheiro para os comprar.

Lembro-me perfeitamente de três concertos que gravei: John Lennon – Live in New York city (1986), Simone – Canecão ao Vivo 1979 e Bruce Spingteen & the E Street Band – Live 1975 – 1985. Este último correspondia a uma caixa muito cobiçada que continha 5 vinis lá dentro e custava um dinheirão. Todas as Sextas-feiras passavam um álbum até fazer o total dos cinco discos.

O meu pai nunca foi de procurar novos sons. Em casa e no carro ouvia sempre a música da sua geração e sabia quase todas de cor. Quando eu entrava no Opel Kadett do meu pai o percurso era feito ao som da Rádio Nostalgia. Na altura passava música dos anos 50 e 60 e para mim não era um problema. Comecei por me interessar e às tantas já sabia muito mais que qualquer outro miúdo de 13 anos.
Quando começava uma música na rádio, em jeito de concurso perguntava-me logo se eu sabia quem é que cantava ou qual o nome da música. Tinha que identificar logo nos primeiros acordes, senão dava ele a resposta.
O meu pai usava uns Ray Ban modelo Aviator e costumava cantar por cima das músicas enquanto conduzia. Devia ter perto dos quarenta anos.

Ora deixa cá ver… hoje estamos em 2009 e sou o Alexandre. O filho do Pai e o neto do Avô.
Não dá nada de jeito na televisão. O CSI ainda se vê bem.
Os meus pais já estão divorciados e por isso estou metade da semana com a minha mãe e a outra metade com o meu pai. O meu pai tem um Renault Clio e eu vou fazer 9 anos.

Respiro música, jogos, vídeos e tudo o que se mexa num ecrã. A internet é a base de tudo pois tudo o que referenciei antes pode se encontrado lá. Não preciso de ficar acordado. Se entrar no dia seguinte continua tudo lá na mesma. Não me lembro o que tive primeiro: se foi Leitor de Mp3, PSP, Play Station 2 ou PC. O importante é que tenho isso tudo.

No carro ouvimos várias rádios, mas destaque para a M80. Música dos anos 70, 80 e 90. O meu pai sabe tudo de cor. E volta e meia pergunta-me se eu sei quem está a cantar. O meu pai até é de procurar novos sons, mas coitado: as bandas surgem de uma forma tão rápida que quando se vai inteirar já a banda não existe.
O meu pai usa uns óculos tipo aviador e costuma cantar por cima das músicas enquanto bate no volante e no manípulo das mudanças. Deve estar a passar dos 35 anos.

Às vezes olha-me nos olhos e diz-me: “Filho és, pai serás.”

My Geneneration

Antes: The Who


Agora: Oasis


Depois: The Zimmers


sexta-feira, janeiro 30

A lista da morte

Há coisa de duas semanas emprestaram-me um filme. O The Bucket List de 2007 dirigido por Rob Reiner com Jack Nicholson e Morgan Freeman nos principais papéis.

O filme conta a história de dois doentes em fase terminal que se conhecem no hospital. Um é rico (Jack Nicholson) e o outro não (Morgan Freeman). Ao descobrirem que lhes resta poucos meses de vida resolvem fazer uma lista de desejos que gostariam de realizar antes de morrer. O dinheiro não é problema e nos meses seguintes viajam pelo mundo realizando cada um dos seus desejos.

O tema até é bom, mas a leviandade com que é abordado acaba por estragar tudo. O filme é uma comédia dramática pois retrata um drama com a ligeireza característica do género e com isso consegue mostrar como se desperdiça dois dos melhores talentos da representação de hoje, num argumento fácil e carregado de clichés.

A previsibilidade da trama e o dilema moral entre o espiritual e o material há muito que é recorrente em Hollywood e quando abordado desta maneira, não atinge outro objectivo senão o de entreter e fazer rir. Se o objectivo era colocar as pessoas a pensar sobre a forma como andam a viver, acho que ficaram um pouco aquém.

Se compararmos a Lista de Bucket com o magnífico Into the Wild (Sean Penn, 2007) verificamos que o primeiro rendeu $175,000,000 sendo 53% das receitas provenientes dos EUA, ao passo que o segundo rendeu apenas $55,000,000 sendo a Europa e resto do mundo responsáveis por 67% dessa receita.

Ambos os filmes falam um pouco da mesma temática embora com abordagens diferentes. Mesmo sabendo que a Lista de Bucket junta no elenco dois grandes actores, o que desperta a curiosidade e a apetência do espectador, estes resultados levam me a duas simples conclusões: (1) Os americanos preferem a comédia ao drama; (2) Apesar de menos visto que o filme de Rob Reiner, o Into de Wild foi mais visto pelo resto do mundo.

Com isto vemos traçado o perfil do americano comum que prefere abordar os dramas de forma lasciva e descontraída sem ter muito que pensar.
Ao contrário do americano, eu pensei muito e não sei se hei-de classificar o filme como mau, péssimo ou medíocre.

Mas para zombar da morte nada melhor que os Monty Pythons no The Meaning of Life de 1983 . Aqui fica um apanhado dos melhores momentos ao som de um tema que também fala da morte "Welcome to the Black Parade" dos norte americanos My Chemical Romance's.

quinta-feira, janeiro 29

Escrever enquanto todos dormem

Tinha uma alcunha comprida. Chamávamos-lhe “Johnny the mack in the big cave” quando tínhamos os nossos 15 anos. Se nos questionarmos porquê, ninguém sabe a resposta. Poderá ter sido uma personagem de banda desenhada mas não temos a certeza. Acho que chamávamos sobretudo por três motivos: todos tínhamos que ter alcunhas; Johnny era uma palavra inglesa e dava estilo quando prenunciada; mas sobretudo por ele se chamar João Nascimento.

João do Nascimento, como é conhecido agora, foi talvez o único dos meus amigos que se destacou no campo cultural e literário. Jornalista num jornal diário da capital editou o seu primeiro livro de poesia Duas Pegadas de Água na Chuva em 2001 na Quasi Edições. Em 2003 publicou na Editorial Notícias o livro Do Agreste ao Planalto, uma biografia do Presidente do Brasil, Lula da Silva e no passado dia 22 de Janeiro lançou a sua primeira obra de ficção - Escrever Enquanto Todos Dormem (triologia) - na Portugália Editora.

Fui até à nova livraria Buchholz no chiado felicitá-lo e encontrei um Johnny igual a ele mesmo. Calmo sereno e espirituoso como sempre. Enquanto o livro era apresentado o meu pensamento regressava a 1985 e à nossa escola secundária. As imagens dos fins-de-semana em Caneças, as passagens de ano, os ensaios de música no Estúdio Som, e as idas de cacilheiro à praia de São João pairaram por instantes na minha memória.

Apesar de não ter lido ainda o livro já se justifica este post no blog. O João do Nascimento é um motivo de orgulho para mim e faz-me acreditar que nem tudo ficou perdido daquela fornalha de jovens que um dia saíram da mesma escola secundária.
Entre os que foram para a polícia, os que se tornaram bancários ou profissionais de seguros ou os que se encaixaram na função pública, o Johnny teve a capacidade e a sorte de ir mais além e eu fico muito feliz por isso.

Em relação à obra, a minha opinião virá, como de costume, em forma de post. Será a minha próxima leitura assim que as férias do mestrado me proporcionarem outras leituras.

Ler Johnny será como voltar a lembrar os velhos tempos.

segunda-feira, janeiro 26

Mafalda Veiga, quem és tu?

Anda muita gente a tentar-nos enganar. Os políticos já se sabe: Enganam-nos com as promessas e com os números. As televisões tentam nos mostrar um mundo que não é de todo verdadeiro e as rádios querem nos fazer acreditar que as músicas que passam são as melhores do planeta. Ainda temos os padres que nos querem fazer crer em coisas que não existem e depois vem por aí a baixo. Começa no mecânico e passa pelo merceeiro e apanha o canalizador e o pedreiro, etc.

Mas de quem eu não estava nada à espera é que os tipos do marketing também nos quisessem enganar. Esses malfeitores!

Não é que esses bandidos querem nos fazer ver que a Mafalda Veiga já não é a Mafalda Veiga.
Eu passo a explicar: A Mafalda tem um álbum novo. Chama-se “Chão” e é igual aos outros. Até aqui tudo bem. Nem toda a gente consegue inovar. Acontece que os tipos do marketing ao desenharem a estratégia de comunicação da artista resolveram espalhar pela cidade um cartaz embusteiro e sedutor a anunciar a data dos concertos.

Nesta magnífica produção fotográfica vemos a Mafalda de camisola de alças e de ombros descobertos numa tentativa clara de mostrar que é tão aventureira e pronta para os desafios como a Lara Croft.
O cabelo selvagem esconde um rosto que nos sugere ser rebelde completando, assim, o traço psicológico.
Depois vem a acção: O corpo ligeiramente inclinado para trás, a mão esquerda que agarra pelo meio da escala o braço de uma guitarra cor de rock, e, finalmente, a mão direita que desfocada sugere-nos um momento de grande sensibilidade: um solo de guitarra. Mas não é um solo qualquer. Pelo ligeiro adiantado da perna esquerda é um solo em grande estilo. É daqueles que um qualquer pedal de efeitos deve estar a ser utilizado em simultâneo, tornando a performance ainda mais difícil.

O que os senhores do marketing fizeram foi uma velhacaria. Quiseram-nos fazer crer que a Mafalda é uma rockeira e sua em palco. A nossa Mafalda não é uma PJ Harvey, uma Sheryl Crown ou mesmo uma Alanis Morisette. A nossa Mafalda é uma menina de bem. Caso não saibam cantou os “pássaros do sul” num registo calmo e insonso. O cartaz devia reproduzir uma Mafalda deitada ao lado da sua guitarra de madeira, descascando uma laranja numa enorme seara de trigo, deslumbrando um céu que teima entardecer sobre uma pequena aldeia de Portugal.

A Mafalda não escreve sobre conflitos, sexo, drogas ou violência. A Mafalda fala sobre a natureza e a formosura do amor. A Mafalda não faz barulho. Respeita os vizinhos e não põe a música alta.

Esse cartaz é um embuste. É traiçoeiro, enganador, patife e devasso.

É a mesma coisa que fazerem um cartaz com os cinco elementos dos Xutos e Pontapés vestidos com umas místicas túnicas brancas de linho sentados de cócoras em frente ao grande lago do Taj Mahal, sugerindo que nesse novo álbum, instrumentos orientais teriam sido utilizados na gravação e que as letras agora teriam um maior teor espiritual.

Há artistas que nunca mudam.


quinta-feira, janeiro 22

Who's fat?

Nunca tive uma namorada que não quisesse emagrecer. Será que sou eu que só escolho gordas ou elas é que acham que nunca estão suficiente magras?

É engraçado vê-las a desdobrarem-se em esforços. Umas tomavam chás frios em garrafas de litro e meio, outras optavam pelas ampolas da ervanária. Havia também aquelas que no almoço não comiam mais que uma sopa mas que à noite vingavam-se nos chocolates ou nos gelados. Depois havia também quem se achasse só gorda na barriga e optasse pela acupunctura localizada. Ah… ia-me esquecendo das outras que tomavam CLA sem fazer exercício físico.

Enfim, autoflagelavam-se à minha frente. Doia-me a alma de ver aquelas pobres criaturas - que de gordas não tinham nada - em tremenda angústia e tristeza. Por mais calorias que perdessem debaixo dos lençóis achavam-se sempre gordas.

Quando se aproximava o Verão ou um evento importante era quando sofriam mais. E espantem-se: muitas vezes era mais pelo que as pessoas iam pensar.

Na verdade nunca vi nenhuma a fazer desporto. Pelo menos de forma séria. O desporto para elas era sempre num ginásio caríssimo, sob o pretexto de ser livre-trânsito, mas que na realidade nunca durava mais do que três meses. Ou porque começava a chover, ou porque estava frio, ou porque não tinham companhia, ou porque entretanto apareciam outras coisas para fazer.

Vendo bem eu acho que não escolho gordas. Eu escolho é pouco inteligentes…


Weird Al Yankovic - Fat - MyVideo

domingo, janeiro 18

30 anos de Xutos

Os Xutos simbolizam o rock nacional e o movimento pós-punk em Portugal. Isso não há dúvidas. Não só através da sua música mas também da sua imagem. Fizeram parte da minha adolescência e contribuíram para toda a minha irreverência, incluindo a pequena dose que ainda tenho hoje.

Transversais, são hoje admirados por todas as classes sociais e pelo menos duas gerações de pessoas.

Mas nem sempre foi assim. É bom lembrar que até 1985 os Xutos não chegavam a todos. Eram só para alguns outsiders, que, como eu, sonhavam um dia ter o estilo de vida semelhante à dos Xutos.

Em 1987 com o lançamento do Circo de Feras - produzido pelo Carlos Maria Trindade - e um ano depois com álbum 88, os Xutos & Pontapés chegavam finalmente à ribalta e atingiam, a meu ver, o auge quer no ponto de vista técnico quer no ponto de vista da composição musical.

A partir dos Gritos Mudos no início da década de 90 começa, na minha opinião, o declínio da banda. Um declínio mais musical do que propriamente comercial. A verdade é que com o aparecimento de novas bandas os Xutos tiveram dificuldade em inovar e optaram por se manter fiéis aos seus ideais e ao seu som. São por isso uma banda igual a muitas outras por este mundo fora embora no Portugal dos pequeninos tenham estatuto de estrelas de rock.

Quando pensamos em Xutos pensamos logo em Zé Pedro. E é justamente este que, na minha opinião, é o elemento mais fraco no ponto de vista técnico. Por outro lado, o João Cabeleira que é o mais discreto da banda, vejo-o como o insubstituível. É, para mim, o responsável por toda a sonoridade rock que caracteriza o som dos Xutos. Já o Tim nunca teve na voz um instrumento perfeito mas conseguiu, melhor do que ninguém, transmitir a crueza necessária que o rock exige, ocultando por detrás do seu timbre, o vazio que a poesia das suas letras transmite.

Os Xutos não são por isso nenhuns tecnicistas virtuosos. São hoje um fenómeno de massas que, longe dos lemas de outros tempos - o “sex, drugs and rock’n’roll” - conseguiram iludir, de uma forma brilhante, toda a opinião pública e ocupar um lugar de destaque no panorama musical e que - justiça seja feita - é mais do que merecido.

Mesmo assim, apesar de todas estas fraquezas, os concertos do Xutos continuam a ser os meus preferidos. Pelo espectáculo em si, pela sonoridade e pela energia que transmitem, no próximo faço questão de levar o meu filho pela primeira vez.

Quanto à música nova já não é bem assim. Apenas a um mês do lançamento do novo álbum confesso que não estou em pulgas. O mais certo é vir mais do mesmo. Quem me dera que me conseguisse surpreender com novas músicas dos Xutos & Pontapés.

Parabéns aos Xutos pelos 30 anos!



Sex & Drugs & Rock & Roll (Ian Dury and the Blockheads - 1977)

segunda-feira, janeiro 12

Burger Man

Naquele dia estava particularmente desanimado. Era dia 3 de Janeiro e ainda estava meio atordoado da passagem de ano. Ainda por mais tinha estado toda a manhã a jogar ténis enquanto o Alexandre frequentava as aulas de natação. Doíam-me as pernas e ainda tinha que ir fazer o almoço. Não tinha nada em casa e o frigorifico só continha ar. Foi então que resolvi parar no McDonald's de Santos.

Ainda nem tinha saído do carro e já se juntara ao meu desalento o remorso dessa decisão. A inquietação da minha consciência por culpa ou crime prestes cometer acompanhou-me até à porta.

Tinha um duplo sentimento de culpa. Por um lado estávamos prestes a ingerir 700 calorias cada um e por outro tinha sido vencido pela indolência e pela preguiça. O exemplo da fraqueza e do que não se deve fazer estava dado ao meu filho. Mesmo assim entrei. Pedimos e comemos.

Mas foi ainda durante a refeição que me deslumbrei com o que vi entrar pela porta. Era ele: o Zeinal Bava! E pergunta o leitor “quem é esse estranho?” É só o Presidente Executivo da Portugal Telecom. O novo homem forte da PT.

É novo e descontraído o gajo! Tinha chegado com a mulher e com os filhos e iam fazer uma modesta refeição. Não é que ele não possa ir ao McDonald's, mas ele deve ter um salário que rondará seguramente os 150.000 euros mensais. Isso significa que ele podia até comprar uma vaca e guardá-la no congelador, ou até mesmo comprar um McDonald's só para a família. Mas não. Ele estava ali na mesma condição do que eu. Foi distribuir calorias pela família e possivelmente também fora vencido pela mandriice.

Não sei. Só sei que me senti bem. Não sei se estava num restaurante fino ou se a crise já tinha chegado aquela família.

Sentia-me bem. Estava a jogar noutra divisão. Cada dentada que dava no meu BigMac sentia o fosso entre ricos e pobres a diminuir.

Era o melhor pai do mundo. Tinha levado o meu filho ao Gambrinus. Viva o ano novo!



"Burger Man" (ZZTOP - Recycler - 1990)