sexta-feira, janeiro 30

A lista da morte

Há coisa de duas semanas emprestaram-me um filme. O The Bucket List de 2007 dirigido por Rob Reiner com Jack Nicholson e Morgan Freeman nos principais papéis.

O filme conta a história de dois doentes em fase terminal que se conhecem no hospital. Um é rico (Jack Nicholson) e o outro não (Morgan Freeman). Ao descobrirem que lhes resta poucos meses de vida resolvem fazer uma lista de desejos que gostariam de realizar antes de morrer. O dinheiro não é problema e nos meses seguintes viajam pelo mundo realizando cada um dos seus desejos.

O tema até é bom, mas a leviandade com que é abordado acaba por estragar tudo. O filme é uma comédia dramática pois retrata um drama com a ligeireza característica do género e com isso consegue mostrar como se desperdiça dois dos melhores talentos da representação de hoje, num argumento fácil e carregado de clichés.

A previsibilidade da trama e o dilema moral entre o espiritual e o material há muito que é recorrente em Hollywood e quando abordado desta maneira, não atinge outro objectivo senão o de entreter e fazer rir. Se o objectivo era colocar as pessoas a pensar sobre a forma como andam a viver, acho que ficaram um pouco aquém.

Se compararmos a Lista de Bucket com o magnífico Into the Wild (Sean Penn, 2007) verificamos que o primeiro rendeu $175,000,000 sendo 53% das receitas provenientes dos EUA, ao passo que o segundo rendeu apenas $55,000,000 sendo a Europa e resto do mundo responsáveis por 67% dessa receita.

Ambos os filmes falam um pouco da mesma temática embora com abordagens diferentes. Mesmo sabendo que a Lista de Bucket junta no elenco dois grandes actores, o que desperta a curiosidade e a apetência do espectador, estes resultados levam me a duas simples conclusões: (1) Os americanos preferem a comédia ao drama; (2) Apesar de menos visto que o filme de Rob Reiner, o Into de Wild foi mais visto pelo resto do mundo.

Com isto vemos traçado o perfil do americano comum que prefere abordar os dramas de forma lasciva e descontraída sem ter muito que pensar.
Ao contrário do americano, eu pensei muito e não sei se hei-de classificar o filme como mau, péssimo ou medíocre.

Mas para zombar da morte nada melhor que os Monty Pythons no The Meaning of Life de 1983 . Aqui fica um apanhado dos melhores momentos ao som de um tema que também fala da morte "Welcome to the Black Parade" dos norte americanos My Chemical Romance's.

quinta-feira, janeiro 29

Escrever enquanto todos dormem

Tinha uma alcunha comprida. Chamávamos-lhe “Johnny the mack in the big cave” quando tínhamos os nossos 15 anos. Se nos questionarmos porquê, ninguém sabe a resposta. Poderá ter sido uma personagem de banda desenhada mas não temos a certeza. Acho que chamávamos sobretudo por três motivos: todos tínhamos que ter alcunhas; Johnny era uma palavra inglesa e dava estilo quando prenunciada; mas sobretudo por ele se chamar João Nascimento.

João do Nascimento, como é conhecido agora, foi talvez o único dos meus amigos que se destacou no campo cultural e literário. Jornalista num jornal diário da capital editou o seu primeiro livro de poesia Duas Pegadas de Água na Chuva em 2001 na Quasi Edições. Em 2003 publicou na Editorial Notícias o livro Do Agreste ao Planalto, uma biografia do Presidente do Brasil, Lula da Silva e no passado dia 22 de Janeiro lançou a sua primeira obra de ficção - Escrever Enquanto Todos Dormem (triologia) - na Portugália Editora.

Fui até à nova livraria Buchholz no chiado felicitá-lo e encontrei um Johnny igual a ele mesmo. Calmo sereno e espirituoso como sempre. Enquanto o livro era apresentado o meu pensamento regressava a 1985 e à nossa escola secundária. As imagens dos fins-de-semana em Caneças, as passagens de ano, os ensaios de música no Estúdio Som, e as idas de cacilheiro à praia de São João pairaram por instantes na minha memória.

Apesar de não ter lido ainda o livro já se justifica este post no blog. O João do Nascimento é um motivo de orgulho para mim e faz-me acreditar que nem tudo ficou perdido daquela fornalha de jovens que um dia saíram da mesma escola secundária.
Entre os que foram para a polícia, os que se tornaram bancários ou profissionais de seguros ou os que se encaixaram na função pública, o Johnny teve a capacidade e a sorte de ir mais além e eu fico muito feliz por isso.

Em relação à obra, a minha opinião virá, como de costume, em forma de post. Será a minha próxima leitura assim que as férias do mestrado me proporcionarem outras leituras.

Ler Johnny será como voltar a lembrar os velhos tempos.

segunda-feira, janeiro 26

Mafalda Veiga, quem és tu?

Anda muita gente a tentar-nos enganar. Os políticos já se sabe: Enganam-nos com as promessas e com os números. As televisões tentam nos mostrar um mundo que não é de todo verdadeiro e as rádios querem nos fazer acreditar que as músicas que passam são as melhores do planeta. Ainda temos os padres que nos querem fazer crer em coisas que não existem e depois vem por aí a baixo. Começa no mecânico e passa pelo merceeiro e apanha o canalizador e o pedreiro, etc.

Mas de quem eu não estava nada à espera é que os tipos do marketing também nos quisessem enganar. Esses malfeitores!

Não é que esses bandidos querem nos fazer ver que a Mafalda Veiga já não é a Mafalda Veiga.
Eu passo a explicar: A Mafalda tem um álbum novo. Chama-se “Chão” e é igual aos outros. Até aqui tudo bem. Nem toda a gente consegue inovar. Acontece que os tipos do marketing ao desenharem a estratégia de comunicação da artista resolveram espalhar pela cidade um cartaz embusteiro e sedutor a anunciar a data dos concertos.

Nesta magnífica produção fotográfica vemos a Mafalda de camisola de alças e de ombros descobertos numa tentativa clara de mostrar que é tão aventureira e pronta para os desafios como a Lara Croft.
O cabelo selvagem esconde um rosto que nos sugere ser rebelde completando, assim, o traço psicológico.
Depois vem a acção: O corpo ligeiramente inclinado para trás, a mão esquerda que agarra pelo meio da escala o braço de uma guitarra cor de rock, e, finalmente, a mão direita que desfocada sugere-nos um momento de grande sensibilidade: um solo de guitarra. Mas não é um solo qualquer. Pelo ligeiro adiantado da perna esquerda é um solo em grande estilo. É daqueles que um qualquer pedal de efeitos deve estar a ser utilizado em simultâneo, tornando a performance ainda mais difícil.

O que os senhores do marketing fizeram foi uma velhacaria. Quiseram-nos fazer crer que a Mafalda é uma rockeira e sua em palco. A nossa Mafalda não é uma PJ Harvey, uma Sheryl Crown ou mesmo uma Alanis Morisette. A nossa Mafalda é uma menina de bem. Caso não saibam cantou os “pássaros do sul” num registo calmo e insonso. O cartaz devia reproduzir uma Mafalda deitada ao lado da sua guitarra de madeira, descascando uma laranja numa enorme seara de trigo, deslumbrando um céu que teima entardecer sobre uma pequena aldeia de Portugal.

A Mafalda não escreve sobre conflitos, sexo, drogas ou violência. A Mafalda fala sobre a natureza e a formosura do amor. A Mafalda não faz barulho. Respeita os vizinhos e não põe a música alta.

Esse cartaz é um embuste. É traiçoeiro, enganador, patife e devasso.

É a mesma coisa que fazerem um cartaz com os cinco elementos dos Xutos e Pontapés vestidos com umas místicas túnicas brancas de linho sentados de cócoras em frente ao grande lago do Taj Mahal, sugerindo que nesse novo álbum, instrumentos orientais teriam sido utilizados na gravação e que as letras agora teriam um maior teor espiritual.

Há artistas que nunca mudam.


quinta-feira, janeiro 22

Who's fat?

Nunca tive uma namorada que não quisesse emagrecer. Será que sou eu que só escolho gordas ou elas é que acham que nunca estão suficiente magras?

É engraçado vê-las a desdobrarem-se em esforços. Umas tomavam chás frios em garrafas de litro e meio, outras optavam pelas ampolas da ervanária. Havia também aquelas que no almoço não comiam mais que uma sopa mas que à noite vingavam-se nos chocolates ou nos gelados. Depois havia também quem se achasse só gorda na barriga e optasse pela acupunctura localizada. Ah… ia-me esquecendo das outras que tomavam CLA sem fazer exercício físico.

Enfim, autoflagelavam-se à minha frente. Doia-me a alma de ver aquelas pobres criaturas - que de gordas não tinham nada - em tremenda angústia e tristeza. Por mais calorias que perdessem debaixo dos lençóis achavam-se sempre gordas.

Quando se aproximava o Verão ou um evento importante era quando sofriam mais. E espantem-se: muitas vezes era mais pelo que as pessoas iam pensar.

Na verdade nunca vi nenhuma a fazer desporto. Pelo menos de forma séria. O desporto para elas era sempre num ginásio caríssimo, sob o pretexto de ser livre-trânsito, mas que na realidade nunca durava mais do que três meses. Ou porque começava a chover, ou porque estava frio, ou porque não tinham companhia, ou porque entretanto apareciam outras coisas para fazer.

Vendo bem eu acho que não escolho gordas. Eu escolho é pouco inteligentes…


Weird Al Yankovic - Fat - MyVideo

domingo, janeiro 18

30 anos de Xutos

Os Xutos simbolizam o rock nacional e o movimento pós-punk em Portugal. Isso não há dúvidas. Não só através da sua música mas também da sua imagem. Fizeram parte da minha adolescência e contribuíram para toda a minha irreverência, incluindo a pequena dose que ainda tenho hoje.

Transversais, são hoje admirados por todas as classes sociais e pelo menos duas gerações de pessoas.

Mas nem sempre foi assim. É bom lembrar que até 1985 os Xutos não chegavam a todos. Eram só para alguns outsiders, que, como eu, sonhavam um dia ter o estilo de vida semelhante à dos Xutos.

Em 1987 com o lançamento do Circo de Feras - produzido pelo Carlos Maria Trindade - e um ano depois com álbum 88, os Xutos & Pontapés chegavam finalmente à ribalta e atingiam, a meu ver, o auge quer no ponto de vista técnico quer no ponto de vista da composição musical.

A partir dos Gritos Mudos no início da década de 90 começa, na minha opinião, o declínio da banda. Um declínio mais musical do que propriamente comercial. A verdade é que com o aparecimento de novas bandas os Xutos tiveram dificuldade em inovar e optaram por se manter fiéis aos seus ideais e ao seu som. São por isso uma banda igual a muitas outras por este mundo fora embora no Portugal dos pequeninos tenham estatuto de estrelas de rock.

Quando pensamos em Xutos pensamos logo em Zé Pedro. E é justamente este que, na minha opinião, é o elemento mais fraco no ponto de vista técnico. Por outro lado, o João Cabeleira que é o mais discreto da banda, vejo-o como o insubstituível. É, para mim, o responsável por toda a sonoridade rock que caracteriza o som dos Xutos. Já o Tim nunca teve na voz um instrumento perfeito mas conseguiu, melhor do que ninguém, transmitir a crueza necessária que o rock exige, ocultando por detrás do seu timbre, o vazio que a poesia das suas letras transmite.

Os Xutos não são por isso nenhuns tecnicistas virtuosos. São hoje um fenómeno de massas que, longe dos lemas de outros tempos - o “sex, drugs and rock’n’roll” - conseguiram iludir, de uma forma brilhante, toda a opinião pública e ocupar um lugar de destaque no panorama musical e que - justiça seja feita - é mais do que merecido.

Mesmo assim, apesar de todas estas fraquezas, os concertos do Xutos continuam a ser os meus preferidos. Pelo espectáculo em si, pela sonoridade e pela energia que transmitem, no próximo faço questão de levar o meu filho pela primeira vez.

Quanto à música nova já não é bem assim. Apenas a um mês do lançamento do novo álbum confesso que não estou em pulgas. O mais certo é vir mais do mesmo. Quem me dera que me conseguisse surpreender com novas músicas dos Xutos & Pontapés.

Parabéns aos Xutos pelos 30 anos!



Sex & Drugs & Rock & Roll (Ian Dury and the Blockheads - 1977)

segunda-feira, janeiro 12

Burger Man

Naquele dia estava particularmente desanimado. Era dia 3 de Janeiro e ainda estava meio atordoado da passagem de ano. Ainda por mais tinha estado toda a manhã a jogar ténis enquanto o Alexandre frequentava as aulas de natação. Doíam-me as pernas e ainda tinha que ir fazer o almoço. Não tinha nada em casa e o frigorifico só continha ar. Foi então que resolvi parar no McDonald's de Santos.

Ainda nem tinha saído do carro e já se juntara ao meu desalento o remorso dessa decisão. A inquietação da minha consciência por culpa ou crime prestes cometer acompanhou-me até à porta.

Tinha um duplo sentimento de culpa. Por um lado estávamos prestes a ingerir 700 calorias cada um e por outro tinha sido vencido pela indolência e pela preguiça. O exemplo da fraqueza e do que não se deve fazer estava dado ao meu filho. Mesmo assim entrei. Pedimos e comemos.

Mas foi ainda durante a refeição que me deslumbrei com o que vi entrar pela porta. Era ele: o Zeinal Bava! E pergunta o leitor “quem é esse estranho?” É só o Presidente Executivo da Portugal Telecom. O novo homem forte da PT.

É novo e descontraído o gajo! Tinha chegado com a mulher e com os filhos e iam fazer uma modesta refeição. Não é que ele não possa ir ao McDonald's, mas ele deve ter um salário que rondará seguramente os 150.000 euros mensais. Isso significa que ele podia até comprar uma vaca e guardá-la no congelador, ou até mesmo comprar um McDonald's só para a família. Mas não. Ele estava ali na mesma condição do que eu. Foi distribuir calorias pela família e possivelmente também fora vencido pela mandriice.

Não sei. Só sei que me senti bem. Não sei se estava num restaurante fino ou se a crise já tinha chegado aquela família.

Sentia-me bem. Estava a jogar noutra divisão. Cada dentada que dava no meu BigMac sentia o fosso entre ricos e pobres a diminuir.

Era o melhor pai do mundo. Tinha levado o meu filho ao Gambrinus. Viva o ano novo!



"Burger Man" (ZZTOP - Recycler - 1990)